Domingo, 27 de setembro de 2026
Anteontem o governo anunciou a suspensão da atividade das bets (empreass de apostas esportivas) no Brasil. A justificativa, segundo me parece, é que a jogatina liberada no país estava levando muitas pessoas ao vício de apostar, prejudicando a elas e a suas famílias. Em cada propaganda veiculada de uma bet, vinha um aviso de que “o Ministério da Fazenda adverte, aposta não é investimento”.
O crescimento do endividamento de famílias em função do vício em apostas se tornou alarmante.
Bem.
Eu acho válido o esforço governamental para inibir a questão do endividamento pessoal e familiar, mas, ao mesmo tempo, não consigo deixar de pensar que o governo está agindo em causa própria.
Apesar de não ter acompanhado o chamado “boom” das apostas esportivas (desde o primeiro momento eu nunca me vi sequer propenso a fazer qualquer tipo de aposta, mesmo sendo a totalidade delas vinculadas ao futebol), soube de sua existência pouco depois de um momento em que decidi abandonar o costume de jogar nas loterias oficiais do governo.
O governo federal desde sempre foi o maior fomentador de jogatina do país. E eu acho engraçado que nunca houve preocupação com o endividamento das pessoas por conta de apostas em loterias do governo. Meu palpite é de que a arrecadação das loterias do governo diminuiu e por isso surgiu a medida de suspensão das atividades das bets.
Nunca houve nenhuma campanha do Ministério da Fazenda advertindo que apostar nas loterias da Caixa não é investimento. Mas agora que a arrecadação provavelmente perdeu espaço, surgiu a preocupação com o endividamento da população.
Eu passei anos jogando na Lotomania e Lotofácil. Uma vez, em 2009, consegui fazer 14 pontos na Lotofacil. Claro que isso fez com que eu continuasse.
MUDANÇA de RUMO
Minhas apostas na Lotomania começaram de forma esporádica em 1999, quando a modalidade foi lançada. Lembro que naquela época eu até tentava convencer as pessoas de que a coisa era boa e “fácil“. Você tinha uma cartela de cem números, marcava cinquenta e eram sorteados vinte. A premiação começava em quinze acertos. Uma barbada.
Na época eu estava noivo de uma pessoa, e ela tentava me convencer não apostar de jeito nenhum, porque não era jito de usar o dinheiro que eu suava para conseguir com meu trabalho. A Lotomania sorteava duas vezes por semana e eu não achava ruim.
Depois o tempo passou, aconteceram coisas, passei um bom tempo sem apostar, e então surgiu a Lotofácil. Também sorteava duas vezes por semana. Você tinha uma cartela com vinte e cinco números, marcava quinze, eram sorteados quinze e a premiação começava com onze acertos.
Acredito que hoje em dia as regras continuam as mesmas. Não sei da Lotomania, mas a Lotofácil acabou mudando, ao longo dos anos. Os valores de tempos em tempos são alterados pelo governo. Depois do lançamento, passei a apostar apenas na Lotofácil. A Mega Sena, por exemplo, eu acho loucura apostar. Impossível acertar seis números em sessenta, sendo sorteados apenas seis. E mesmo assim tem gente que consegue acertar.
Mas esta nunca me chamou a atenção.
Voltando à Lotofácil. Com o passar dos anos, o governo, percebendo que o ovo se atirava, cresceu o olho e aumentou a frequência. Primeiro, de duas para três vezes por semana. Por último, em 2023, passou a sortear diariamente. Ou seja, convidou o povo a apostar mais. Até aí nunca houvera nenhum movimento tentando evitar que as pessoas apostassem. E nem houve.
Quando a Lotofácil começou a sortear todos os dias foi quando eu decidi que estava na hora de parar. Foi o fim da ilusão dos quinze pontos.
A ILUSÃO dos QUINZE PONTOS
Ter feito uma vez 14 pontos foi uma experiência interessante (e falsamente estimulante). Se há um número que nunca vou esquecer (entre outros tantos), é o valor de R$ 2.236,00 do prêmio recebidos por aquela aposta. Um bom dinheiro na época. Quem acertou os quinze pontos levou R$ 780.000.
Acho que naquela época o valor da aposta simples já estava em 2 reais. Não lembro se também tinha começado com 1 real, mas acredito que sim. Fazendo 11 pontos, a premiação era o dobro do valor da aposta, como estímulo a que se jogasse de novo. Onze pontos eu fazia a todo jogo, praticamente, e foi aí que comecei a jogar dez volantes por aposta.
Resumindo, chegou uma época em que minha aposta mensal estava em R$ 600, com um retorno variável entre R$ 200 e R$ 250. No caso do valor mínimo de retorno, o dobro da aposta, eu justificava afirmando (e continua sendo verdade até hoje) que não há investimento que lhe dê cem por cento do valor aplicado de um dia para o outro. Mas eu sabia que não se tratava de um investimento. Tratava-se de uma aposta.
Pessoalmente não conheço ninguém que tenha dito que apostas esportivas eram investimento, mas acredito que muita gente possa pensar assim. Quando governo cresceu o olho e passou a Lotofácil de três sorteios por semana para sorteios diários, eu já estava um pouco propenso a parar de jogar.
Era uma época em que as finanças não estavam muito boas, em 2023. Morando em Bento Gonçalves, cheguei pegar um emprego na Rek Park, empresa de monitoração de estacionamento pago, na região central da cidade. Era preciso equilibrar as contas, já que aluguel, condomínio e a maioria das outras despesas, saía do meu bolso.
A MUDANÇA QUE me LIBERTOU
Eu estava começando a realmente pensar como alguns coaches de finanças e prosperidade que acompanhava pelo You Tube, tendo inclusive adquirido alguns cursos. Estava de verdade começando a pensar que botar dinheiro em loterias do governo era perda de tempo (e de dinheiro, claro).
Quando meu corpo acusou o abuso de passar o dia caminhando e algumas dores começaram a surgir, que eu decidi sair da monitoração de trânsito, no meio de 2023, a Caixa passou a Lotofácil para sorteio diário. Foi quando decidi trocar os R$ 600 das apostas por R$ 350 de uma assinatura de tv a cabo, incluído aí o pay-per-view do Brasileirão, Séries A e B.
A Série B era indispensável, haja vista as constantes quedas de divisão do Grêmio.
Daquele momento em diante nunca mais pensei em jogar, Então, quando as bets começaram a pipocar, no Brasil, minha primeira (e permanente) reação foi torcer o nariz. Em nenhum momento, nestes dois anos, senti qualquer impulso para apostar, mesmo quando surgiram oportunidades.
Muito provavelmente, se tivesse tido alguma recaída e voltado a apostar, seria na Lotofácil.
Agora, o governo querer vir posar de preocupado com as finanças pessoais dos brasileiros das famílias, para mim parece mais que piada, parece deboche. Pessoal, vocês agora não vão poder mais apostar em resultados de futebol (com exceção da loteria esportiva, que agora se chama Loteca e mudou o formato), mas as nossas apostas de sempre continuarão disponíveis, independente se vocês se endividarem ou não.
Não é estranho?
Ah, mas o vicio nas loterias estatais não tinha consequências tão graves quanto o caso das bets, com pessoas se matando por conta das dívidas. Significa dizer o mesmo que afirmei acima, se você não se matou, estar endividado por conta do vício em apostar em loterias oficiais não é tão grave, embora o deixe mal financeiramente, do mesmo jeito.
Tá louco.